“Simplesmente Alborghetti”

Por Vítor Costa*

Cheguei um pouco nervoso e mais cedo, conforme o horário que havíamos combinado, à rádio. A entrevista estava marcada para às 13 horas. Porém ele chegou cerca de 50 minutos depois. A secretária da rádio Colombo do Paraná AM, Zevina Silva, 41 anos, disse-me que de vez em quando ele chegava antes, mas todo dia era diferente. “Às vezes ele chega aqui de bom humor, só que quando ele não está é complicado”, afirma Zevina, que se diz acostumada com o jeito do Seu Luis Carlos, como ela o chama em tom mais respeitoso e amigável.

No momento em que estive esperando meu entrevistado, o jornalista Luis Carlos Alborghetti, 60, passaram pessoas com os mais diferentes intuitos. Procurar emprego, rezar, pois acredite, a rádio tem uma capela, minúscula talvez do tamanho de um banheiro, de Nossa Senhora do Guadalupe. Um caso, por exemplo, foi do garoto Erik, 12, de Paranaguá. Acompanhado de sua mãe ele já parecia cansado de bater de rádio em rádio pedindo uma oportunidade de mostrar o seu talento como “cantor, ator e compositor”. Não desanimou e cantou. Foi um trecho bem curtinho de uma música de Zezé de Camargo e Luciano, confesso que não me lembro o nome da canção. Talvez não tenha sido tão marcante assim. Pelo menos ele e sua mãe saíram sorridentes da estação.

Alborghetti chegou acompanhado por Ricardo Alexandre, seu companheiro de antigas e atuais aventuras. Fomos apresentados. A partir de então o nervosismo acabou. Entramos numa sala que fica ao lado do estúdio principal onde Alborghetti grava o seu programa diário. Na sala apenas uma mesa, duas cadeiras, um armário que provavelmente continha alguns arquivos bem antigos, luminosidade boa graças a uma grande janela, um telefone e um cinzeiro.

Ele acendeu um cigarro. Começamos a conversar e eu ainda não tinha visto a cor dos seus olhos. Pensei por um instante que ambos estaríamos nervosos com a presença do outro. Não poderia ser. Ainda mais com um homem que, provavelmente, já deve ter enfrentado coisa muito pior, que um jornalista, em seus 24 anos de política e outros tantos na comunicação. Eu estava certo. A partir do momento em que ele me chamou pelo nome tudo correu mais tranqüilo.

Alborghetti é um sujeito, como ele mesmo diz, “de cem pessoas, oitenta me amam e vinte querem me matar”. Trata-se de um ícone cultural, da política, da televisão do rádio e graças a internet pode difundir mais o seu trabalho pro mundo todo. No estado do Paraná é difícil quem não o conheça. Por mais que ele tenha nascido em 12/02/1948 na cidade de Andradina no interior de São Paulo, criou-se em Londrina.

Começou, sem lembrar ao certo a data, na Rádio Difusora de Guararapes. Fez novelas para a rádio Atalaia junto do atual senador da república Álvaro Dias. Mas foi devido ao programa cadeia na Rádio Tabajara de Londrina que Alborghetti atingiu a marca de deputado estadual mais votado do Paraná. Hoje em dia ele diz sem nenhuma preocupação: “não quero saber mais desta merda de política. Está tudo podre!”.

“Sou jornalista desde quando nasci, mas fui beneficiado pela Lei Geisel que oficializou tudo”, afirma. Trata-se de um homem lúcido. Porém com muitas idéias que, segundo ele, atormentam sua cabeça e precisam ser ditas de alguma forma ou ordem, nem sempre muito cronológica. Seu raciocínio é um vai e vem constante.

Logo que termina o cigarro já acende outro. A fumaça vem na minha cara, no fundo não me importo. Fala muito alto. Não está nem aí para as outras poucas pessoas que trabalham na rádio. Os palavrões e a extrema sinceridade nas coisas ditas, que até são uma espécie de marca registrada, não se tratam de folclore ou interpretação de algum personagem.

Ao mesmo tempo em que me disse estar “cagando e andando pros outros” sinto uma espécie de mágoa ou raiva quando ele fala de algumas pessoas. Uma delas é Carlos Massa, vulgo Ratinho. “Fui eu quem tirou ele da merda, batizou o filho dele, ganhou eleição por ele e ele ainda tem a cara de pau de me copiar!”, diz enfurecido. Alborghetti utilizava em seus programas, principalmente na televisão, mas também no rádio, um cacetete, toalha no ombro e óculos escuros. E pra quem se lembra do início do Ratinho na televisão não preciso dizer mais nada. Foi exatamente isso que Massa usou.

“Esses dias eu vi o Arnaldo Jabor usar tipo um cano de PVC na crônica dele na Rede Globo. Os caras do Pânico são outros que se inspiram em mim. Essa é a escola Alborghetti”, comenta ele sorrindo largamente. Ele odeia novelas. Gosta mesmo é de documentários e programas jornalísticos. Crê ainda que nada se salva na televisão aberta brasileira, talvez dois telejornais.

Alborghetti também confessa gostar de algumas pessoas, por exemplo, o prefeito de Curitiba Beto Richa, os jornalistas Ricardo Boechat e Alexandre Garcia e o comentarista José Simão. Além de sua esposa e filho sinto uma admiração notável em seus olhos pela sua cachorrinha, da raça Lhasa apso, chamada Demi Moore Alborghetti. “Os animais são os seres mais espetaculares da Terra. Quando estou triste ela me entende. Se estou bravo também. Ela é minha filha e companheira”, conta-me Alborghetti em seu momento mais tenro que pude presenciar.

Ele acende outro cigarro. Continua falando alto e chega até a soltar uns perdigotos, vale a pena. Alborghetti comenta que não adianta nada só fazer faculdade. “Tem que ser um repórter toda hora e pra vida toda”. Tem projetos de voltar com um programa na internet, meio que ele admira muito devido a possibilidade de interação mundial.

Chegamos a um ponto de certa intimidade. Revela que sofre de síndrome do pânico, de perseguição, do medo e é bem metódico. Diz ter vinte processos por “falar mal” de bandidos e os direitos humanos acabam lhe processando. Certas horas é uma pessoa individualista. Fala que produz tudo em seu programa. O que não é verdade, já que seu colega, Ricardo Alexandre, estava adiantando tarefas necessárias ao programa durante nossa entrevista. Por mais que não pareça, Luis Carlos Alborghetti é uma pessoa bem religiosa. Em diversos momentos cita sua devoção não só ao catolicismo e mais como uma “pessoa espiritualizada”, afirma ele.

Não acende mais nenhum cigarro. Seu programa já vai começar. Me dá um forte abraço. Despede-se, “vai com Deus meu filho”. Eu digo-lhe o mesmo.

*Vítor Costa é jornalista, vegetariano, adora rock e futebol e ainda acredita que a vida pode ser simples.

Fonte: 91Rock

Anúncios

~ por William Marchiori em 03/11/2008.

3 Respostas to ““Simplesmente Alborghetti””

  1. Olá, companheiro. Fiquei bem feliz em notar, quando entrei aqui no blog, que você encontrou a minha reportagem que fiz com o Alborghetti faz algum tempo e disponibilizou para que outros admiradores também pudessem ler.
    Forte abraço!
    “Um beijo na sua alma”

  2. sensacional hein…

    o Alborghetti dispensa qualquer comentário , fiquei realmente emocionado ao ler esse texto , admiro a personalidade do Mestre , ele sempre será uma reserva moral , seu caráter é de ouro.

  3. […] dos textos anteriormente publicados por Alborghetti para o blog. Neste texto ele comenta sobre uma entrevista publicada pelo jornalista Vitor Costa e fala um pouco sobre as pessoas que trabalharam com […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: